processo:
Quando Maura Baiochi da companhia Taanteatro
de Butoh Nô me pediu trilhas para acompanhar 20 solos, decidi
por seguir um processo de escuta institucional e focar na subjetividade
de cada um dos solistas e na harmonia contextual, pesquisa que estava
a realizar paralelamente à ciberfonia#2. O importante aqui talvez
seja notar que a composição não tem o intuito de
servir de base à performance mas sim de servir de disparador
emocional para o intérprete. Ao fim do processo, escrevi a seguinte
carta à companhia como libreto da parte que me sobrou no fundo
musical.
Novas
presenças,
Difícil falar, difícil fazer. Fizemos
o que quisemos. Não há ensaio para a vida, apesar de alguns
insistirem em fazer meramente o que podem.
The only news is bad news. Representação e repressão
coagem na redução do corpo a linguagem. Minha gratidão
aos corpos que mantiveram-se em arte apesar do picadeiro burocrático,
meu amor à poesia feita com restos de manuais de instrução,
tábuas morais, obituários e bulas médicas. Só
o que não tem o que dizer engole a língua morta de Zoroastro
sem mastigá-la.
Suor algum jamais deixou entressaber o sabor de um sangue, o esforço
é imanente e o aquecimento pouco se sente nos desertos de gelo
onde Narciso mendiga impondo a atenção da platéia.
Solo em suas incontáveis camadas de solidão, quem ainda
tem amor o bastante para se pôr numa mão trêmula
de gana e ânsia a apontar uma direção vazia qualquer?
Desta entrega se arteia o fogo intensificante das mariposas, mas os
carrapatos se alimentam dos cães mais dóceis.
Vi escadas quebrarem por menos que um degrau podre no seu topo. No teatro
elizabetano é uma só voz que se ouve nas distintas bocas,
não a de Shakespear mas a de Elizabeth. Não há
público, mas súditos. Não importam os intérpretes,
mas os papéis.
Velhas
ausências,
Tênue linha que depara a falsa inocência
agridoce do pseudoxamã picareta com o sinismo do capitão
donatário. Toda Compania de Teatro tem um pouco de Compania das
Índias. De gota em gota de fel, a preguiça mercenária
tensiona o ar para os que ainda respiram paixão. Marcar passo
é para os corações frágeis.
Quando o que nos resta de talento a doar se reduz à direção
do auto-ofuscamento, a faisquinha de nossos brilhos suspira não
mais que vaidades e nostalgias(não concordas Frida?) e todo encontro
passa a ser mediado pela mesquinharia, protegida sob a autoproclamada
genialidade. Quando o bafo toma o auditório, quão fácil
confundir o frescor do trabalho com frescura, teatro sala e teatro gesto.
Enfraquecer as paixões do ato alheio ressalta pela ausência
a direção de nossos próprios umbigos nas ovas pretensas.
Delicada arte de embalar marionetes pelos refluxos do sentimento na
carne, chamadas moedas de troca, pentagramas, cinco são os princípios
do corpo encarcerado. É para o centro do espaço coletivo,
o diretor gravitacional dos ouros, que se voltam as energias espirais
duma mandala, instrumento de hipnose. Humilhar é o fim último
desta humildade gentil, dizendo-se sábio experiente das margens
se pode ruir toda a criação do outro pelo descrédito
e desconfiança. Atores, nada deve ser alcançado a não
ser qualquer ato. Diretores, ninguém pode ser dirigido afora
de si. Bailarinos, é o corpo todo que escuta. Músicos,
o que se compõe é um corpo.
A beleza do poder é a possibilidade não atualizada de
sua irresponsabilidade, quem ainda quer ouvir-se no timbre da voz alheia?
O pau cú clama máscara e rosto fundidos pela sensibilidade
à pele da flor, personalidade não é uma mascarada.
Pérnala quebrada da busca por verdades, seivando a primeva que
almejas cantou: "Não rompam os ligamentos entre as pessoas
para ver os outros cairem de joelhos perante tua autoimagem. Não
reduzam as flores a narcisos, olhores. Borboletas são flores
que voam, flores que mudam e insetos que dançam!" Quando
um lixeiro se corta ao limpar sua casa, não visitaria-lhe os
cortes costurando?
Aluno e mestre, actor e senhor escravo especta dor muito me alegra ter
cumprido estas doze trilhas através destas vidas, o resto é
acidente de trabalho.