everything is the translation of something else!
eu estou lendo a tradução que me fiz de minha memória
do presente, quantas saudades do futuro!
nada é imediato! a vida não é agora

qualquer palavra é uma piada
que já perdeu a graça muito antes de ser cantada
qualquer que ainda fale
deveria fazê-lo rindo do ridículo
busca pela virtude através do vício
e quão mais sutil seu léxico se desdobra
entre o politicamente correto e o humildemente doxal
pavoneia seu discurso de achismos e pseudo-dúvidas
a questão que criamos escolhe
a resposta que queremos ouvir

e quão mais provam-me de sua imparcialidade
perante o patético patológico apaixonante
mais me enoja sua veracidade vocabular
conspirando contra os próprios lábios
exângües por suas veladas intenções
os que não pregam, martelam
só a mentira é sincera!

no início era caos
fricção da ficção com o real
mas a tática demiúrgico-dicotômica
disse ordem e resumiu
o tudo a uma palavra
e quis que logicamente aceitássemos
que uma palavra poderia ser tudo

assim maquinam-se as prisões
de la liberté, amor y locura
da deshumanização em razão pura
à introjeção da moral em supositórios
imperativos categóricos
venda de vendas para os olhos
cegos da própria cegueira
de que só há uma cura para os corpos
e não há cura para ela
pathós antropo ethós
hades antropo areté
homo vicious, o corpo e a vida são vícios

bem sei a parte que me cabe deste assentamento
o metafísico não ocupa espaço
as clepsidras e os calendários
economizam do meu tempo
somos uma raça de doentes sincrônicos
limpando os próprios cús
com as folhas dos livros de areia
dos alfarrabistas babilônicos
cada meu movimento
pai, pátria, patrão
todo padrão de comportamento
estão sob minha pele
e incitam que me rebele
mas dentro dos dicionários
poeta sem palavra
língua estática estética do cacete
buceta sem visco
da puta sem cliente
a rasgar-se ao peito uma sonata
só pra rimar no soneto deles

porque não mais espero voltar
for I wish no more
o eterno retorno não é terno übermensch
e amar os fatos é não negar seus próprios atos

enquanto houver mártires, as saturnais serão adiadas
dando lugar a infindáveis missas ao sadismo e à aceitação
da crueldade inerente a certos homens
fosse o que há de mais humano em todos nós
enquanto houver religião, nos negam a fé
enquanto houver a palavra não haverá diálogo
enquanto houver poetas não vai haver poesia

vou-me embora pra pasárgada
lá já destronaram o rei
lá as camas são de todos
lá ninguém é de ninguém
vou-me embora pra pasárgada
porque lá já não precisam dos livros
lá eles talvez até saibam in il cuore seus poemas
e suas memórias ainda fiquem em seus fígados
e não em papéis


por que não dôo meus livros e abandono a academia?
pra que mais troféus em versos numa estante ou o aval diplomático
se bem sei que estes livros todos não adiantam nada
e é contra as vozes autorizadas que leva a gnose!?
enquanto houver cultura serei senão excultura de mim mesmo
como é que você se sente...se é que sente...
quero perder-me, minha memória!
esta tabula está por demais profunda
lance-me contra o que sinto numa hiperbólica dúvida
viver é deixar riscos pra trás
eu quero o silêncio, mas ele insiste que eu berre
aonde você pensa que vai? hei! aonde você pensa que vai?
continue a escrever, rastreie presenteando a eternidade
eu vou viver que agora sim a vida é agora! taciteuturno...